Tecnologia e o nosso tempo - Em Busca de Futuro #002
Uma reflexão sobre tecnologia, tempo e resistência.
Olá! Como vocês estão? Espero que bem! Nesta edição que marca o início dos textos de 2026 quero trazer uma reflexão sobre tempo e tecnologia. Vamos nessa? :)
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Tecnologia e o nosso tempo
No último trimestre de 2025, recebi um e-mail que me convidava para um curso relacionado à inovação. Logo no início do texto vinha uma pergunta provocativa: “Você também sente que os modelos tradicionais de planejamento já não dão conta da velocidade e da complexidade das mudanças atuais?”.
Minha primeira reação foi uma leve euforia, tentando entender o que seria me oferecido naquele curso e como domar a velocidade das mudanças. Mas, ao reler a pergunta, pensei: mas será que eu quero dar conta de toda essa velocidade e complexidade?
Não é possível pensar o humano em sua completude sem pensar nas tecnologias que fazem parte de sua vida. É inegável que o desenvolvimento da técnica foi condição para nossa sobrevivência na Terra, porém esse caráter que era essencial e criativo acabou se transformando ao longo da história. Hoje, o tempo da técnica é o tempo capital. Não é mais algo desenvolvido com a função primária de nos fazer viver melhor, mas sim em função do desempenho, performance, poder, lucro e consumo.
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han descreve isso como uma sociedade do desempenho e do cansaço, na qual não há espaço para pausa, tédio, maturação, contemplação e espera. Além disso, nos autoculpamos por não conseguir acompanhar a avalanche de informações que nos é transmitida e delegada. Não há mais tempo para observar com atenção e narrar as histórias do mundo. Tudo precisa ser instantâneo e convertido em dados quantificáveis.
O tempo é um tema fértil para a filosofia. O francês Henri Bergson, por exemplo, critica nossa prática de dividir o tempo em pedaços (dias, horas, minutos etc.). Ele chama esse modelo de tempo quantitativo e nos mostra que, ao fazer isso, transformamos o tempo em espaço e, com isso, perdemos suas características mais importantes. Para Bergson, o tempo verdadeiro é duração: aquilo que é vivido. Ele é indivisível, irreversível e atravessado por afetos. Afinal, quem nunca sentiu que o “tempo parou” em alguma situação importante ou decisiva de nossas vidas?
E é aí que eu me pergunto: o quanto estamos perdendo ao nos entregarmos ao tempo da máquina e às suas mudanças? O que estamos perdendo ao não sermos autênticos o suficiente para assumir nosso próprio tempo?
Quando estamos perdidos, muitas vezes basta olhar para o nosso rico conhecimento ancestral. Ailton Krenak e Davi Kopenawa, filósofos de povos indígenas brasileiros, questionam a forma como a modernidade compreende o tempo. Para eles, precisamos romper com a ideia de um tempo apenas linear e progressivo, que se baseia somente em aumentar a produção, a exploração e o esgotamento. O tempo, para os povos indígenas, retorna e se transforma. É o tempo da floresta, que respeita os ciclos de regeneração, cura e maturação. E, talvez o mais importante, é um tempo profundamente afetivo, porque honra os ancestrais e se preocupa com os que ainda estão por vir.
Para encerrar essa reflexão, vale trazer um ponto que a filosofia é mestra em sempre nos relembrar: nossa finitude, a certeza de que um dia vamos morrer. Uma das principais obras do filósofo alemão Martin Heidegger trata justamente do fato de que não há como dissociar nossa existência do tempo. Ser autêntico, para ele, é assumir o próprio tempo, projetar-se dentro dele e fazer escolhas conscientes no tempo que temos.
Voltando à pergunta provocativa que iniciou todo este pensamento, talvez realmente não tenhamos ferramentas para lidar com toda a velocidade e a complexidade das mudanças atuais. Todavia, acredito que a resposta não esteja em querer domar e controlar isso, mas sim em significar melhor o nosso tempo e as nossas escolhas.
Então, neste ano que se inicia, eu desejo a vocês: caminhadas sem rumo, conversas que não levam a lugar nenhum, tempo para criação, sonos restauradores, abraços que congelam o tempo, espaço para o tédio, contemplação, tempo para refletir e para a criação de boas memórias.
Que você abra tempo para o que você deseja fazer e faça boas escolhas. Afinal, assumir com responsabilidade e autenticidade o nosso tempo é um ato revolucionário!
🔥Fagulhas
(achados e indicações para despertar novas ideias)
A poesia é algo que me faz ficar mais atento a beleza e complexidade das pequenas coisas banais. E acho que isso tem tudo a ver com o texto de hoje. A poesia tem a magia de poder congelar ou acelerar o tempo quando quer.
Vou indicar aqui uma coletânea que estou lendo no momento: ¨Toda Poesia” de Ferreira Gullar da editora Compahia das Letras. Está sendo uma leitura sensacional.
Falando sobre tempo, e como tentam explorar cada minuto dele. Quero recomentar o livro “24/7: Capitalismo Tardio e os fins do sono” de Jonathan Crary da Editora Ubu. O livro explora justamente a questão entre capitalismo e tempo. Qualquer dia trago uma resenha dele por aqui. ;)


