Olá! Como vocês estão? Espero que bem!
Nesta edição de “Em Busca de Futuro” vamos até o início da filosofia grega para explorar e refletir sobre uma atitude que é pouco recompensada em nossa sociedade atual, porém muito importante para buscarmos novos conhecimentos e futuros. Vamos nessa?
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Lidar com o não saber
Temos medo de saber que não sabemos. Esta é uma doença silenciosa e tecida pelas diversas interações e demandas de um mundo e sociedade baseados no imediatismo, embriagados pelo dataísmo, entorpecidos pelo que deseja o capital e permeado por inteligências artificiais que estão sempre prontas para criar respostas agradáveis (mas nem sempre verdadeiras).
É fácil de reconhecer os sintomas: Torna-se tabu dizer ou demonstrar que não se sabe algo. A pressão por respostas e resultados é constante e não temos tempo para ter um olhar mais amplo e entender as limitações e os horizontes do que precisamos conhecer.
Saber vira ansiedade. Ficar fora das redes e fluxos de notícia e conteúdos, majoritariamente gerados na internet, gera angústia e buzzword: FOMO (Fear of Missing Out). Também gera insegurança, pois, se é sempre necessário ter todas as respostas, a sensação de nunca estar pronto nos rodeia, pressiona e incomoda o tempo todo.
Além disso, se o que o mundo quer é respostas, não precisamos que elas sejam necessariamente verdadeiras, basta que elas sejam simples, gerem comoção e conversem com uma crença já enraizada de quem está recebendo a mensagem. E assim, afogamo-nos em um mar de fake news.
“Sou mais sábio do que esse homem; nenhum de nós dois realmente conhece algo admirável e bom, entretanto ele julga que conhece algo quando não conhece, enquanto eu, como nada conheço, não julgo tampouco que conheço. Portanto, é provável, de algum modo, que nessa modesta medida seja eu mais sábio do que esse indivíduo - no fato de não julgar que conheço o que não conheço”
Sócrates em Apologia de Sócrates - Platão
Na Apologia de Sócrates, Sócrates, que foi acusado de corromper a juventude e introduzir novos deuses, está discursando em seu julgamento. Durante sua defesa narra que tudo começa com uma pessoa que pergunta ao Oráculo de Delfos se havia alguém mais sábio que Sócrates, e que resposta dada pela oráculo foi que não. Sócrates fica intrigado, pois não acreditava que era o mais sábio, mas que também não era da faculdade dos deuses de contar uma mentira. Então ele começa fazer o que faz de melhor: atormentar a todos com perguntas para poder investigar essa afirmação. O trecho acima é o momento em que ele entende que a razão de ser mais sábio é porque ele sabe que não sabe. Daí a tão famosa frase que atribuem a este filósofo: “Só sei que nada sei”.
Veja que a questão explorada por Sócrates não é uma ode à ignorância. Ele condena a atitude de seus contemporâneos de dizer que sabem o que realmente não sabem. O filósofo nos mostra que conhecer a verdade é fruto de todo um processo dialético, ou seja, é algo que nasce de um diálogo que faz a devida investigação através da razão.
Não obstante é importante darmos a devida atenção de que esse processo de busca da verdade se inicia com uma opinião verdadeira, que se devidamente explorada e trabalhada chega a um conhecimento.
“Logo, para boa direção da conduta, a opinião verdadeira, como guia, não é inferior ao conhecimento.”
(…)
”Realmente, as opiniões verdadeiras enquanto permanecem são belas e fautoras de grande bem. Porém , não se resignam a ficar paradas muito tempo e fogem da alma dos homens, de sorte que carecem de valor enquanto não voltarem a ser amarradas pelo conhecimento de causa”
Sócrates em Mênon - Platão
Saber que não se sabe alguma coisa, e aceitar isso, são os primeiros passos para grandes descobertas. É a partir disso que é possível se traçar hipóteses e iniciar uma investigação. Declarar e assumir o que não se sabe deveria ser o primeiro passo em toda discussão ou reunião que se propõe a ser verdadeira e que se pretenda chegar em algum lugar. Mapear isso é um ato de organização para entender as fronteiras do que está sendo argumentado e buscado.
O mundo, nosso sistema educacional e nossa forma de organizar a produção sempre nos estimularam a dar respostas, mas poucas vezes nos ensinaram a lidar com o não saber. Inclusive, nossas notas e metas nos incentivam para o contrário. Estamos dispersos e ansiosos só tentando acertar e procurando respostas sem saber quais são as perguntas que nos levarão para frente.
Abraçar o não saber como parte do processo é aprender a ficar confortável com a incerteza, atiçar nossa curiosidade com boas perguntas e ter a esperança de que um bom encontro e diálogo podem chegar a lugares antes inimagináveis.
Enfim, que isso seja mais uma faísca, e uma ferramenta, para mudarmos essas estruturas que limitam nossa evolução como sociedade.
🔥Fagulhas
(achados e indicações para despertar novas ideias)
Muito tem se falado sobre Soberania Digital. No final do mês passado tive o prazer de ler o livro: “Tecnologia Sem-Teto: Por territórios digitais soberanos” que foi organizado pelo pessoal do Núcleo de Tecnologia do MTST. Muito legal conhecer um pouco dos projetos de soberania digital que eles tocam por lá, interessantíssimo esse deslocamento da discussão para o território digital e nada melhor do que ler textos sobre isso de um movimento popular que a tanto tempo luta e disputa esse conceito de território.
Indo para literatura brasileira de ficção, terminei de ler e indico a obra "A Cabeça do Santo” de Socorro Acioli. Gente, que leitura gostosa!Historinha apaixonante, emocionante e que me tirou algumas risadas. O gênero é realismo mágico, então para quem gosta de Gabriel García Márquez


